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Téta Barbosa, ou Alessandra dos Santos Barbosa, é uma jornalista de Recife que se achou muito bem na publicidade, mãe de um e madrasta de dois, e de papo franco e reto. No seu site, ela ironiza:

Escrevo porque não tenho dinheiro pra fazer terapia.

E nesse métier ela manda bem. A julgar pelas suas bem-traçadas linhas, já está definitivamente de alta. Em junho de 2011, no vigor dos seus 37 anos, mostrou a que veio com a crônica O CAMINHO DE VOLTA, inaugurando sua presença no Blog do Noblat por onde ficou um bom tempo. E não é que passados 7 anos, o mesmo texto que surpreendeu tantos àquela época do saudoso Orkut, continua atualíssimo e circulando no whatsapp? Vem bem a calhar diante do frenesi em busca de realização pessoal, da avidez de conquistar o primeiro milhão ou das recorrentes crises existenciais. Para alívio dos cansados do ranço político e do discurso de mais do mesmo. Vale a pena saborear, especialmente por quem se dedica com unhas e dentes à carreira que acertadamente escolheu, e que se sente adequado no que faz com sua vocação, mas, sabe-se-lá-porque, pegou um caminho, no qual não quer mais seguir, mas também já não sabe como fazer:

“Já estou voltando. Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta.

Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda. Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras. Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe! Mas, com quase 40 eu estava chegando lá.

Onde mesmo?

No que ninguém conseguiu responder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra FIM. Antes dela, avistei a placa RETORNO e nela mesmo dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo.) É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe. Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo.

E não é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram 4 vezes em quatro anos) agora vêm pra cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta e eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando. chove a internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está melhor que o Facebook , o Twitter e o Orkut juntos.

Aqui se chama ALDEIA e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama. No São João, assamos milho na fogueira. Nos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas vou trabalhar contando as horas para voltar.

Aí eu lembro da placa RETORNO e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: RETORNO – ÚLTIMA CHANCE DE VOCÊ SALVAR SUA VIDA!

Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “compre um e leve dois”. Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta. “

É isso. Pense bem sobre a carreira. Pense especialmente na sua vocação. E salve sua vida.